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IFMA avança em processo de internacionalização

Instituto estreou participação em programa internacional entre instituições brasileiras e moçambicanas, capacitando professores do país africano
  • Augusto do Nascimento
  • publicado 08/01/2019 09h18
  • última modificação 08/01/2019 12h48

Zito Aidene, Naife Elias, Justino Estevão e Abdul Ibraimo (da esq. para a dir.): formadores moçambicanos no IFMA

Em 2018, o Instituto Federal do Maranhão (IFMA) avançou ainda mais no seu processo de internacionalização, implementando para além das fronteiras brasileiras objetivos e finalidades com que foi constituído, como a produção e transferência de conhecimentos e tecnologias voltados para o desenvolvimento social e econômico. Ao completar 10 anos de criação, o Instituto aderiu ao programa de cooperação estabelecido entre instituições do Brasil e de Moçambique, e contribuiu com a capacitação de um grupo de docentes do país africano (ver mapa) em tecnologias agropecuárias. Com isso, a instituição consolida sua atuação na chamada cooperação Sul-Sul, entre países em desenvolvimento.

Entre outubro e novembro, o campus do IFMA situado no bairro Maracanã (São Luís) recebeu os professores Justino Estevão, Abdul Ibraimo, Naife Bernardino Elias e Zito Aidene, que lecionam disciplinas agrárias em instituições de formação técnica e profissional de diferentes províncias moçambicanas. Nessa etapa do programa, que também envolveu outros campi de vocação agrária (Caxias, Codó e São Raimundo das Mangabeiras), eles tiveram capacitações nas áreas de solos e produção (criação de animais e cultivo de plantas). Em período posterior, que se estendeu até dezembro, o grupo prosseguiu a formação em outros dois institutos federais – do Ceará (IFCE) e do Sertão Pernambucano (IF Sertão-PE) -, onde se desenvolveram os demais eixos temáticos propostos pelo programa.

O “Plano de Formação de Formadores de Moçambique no Brasil” tem como área prioritária as Ciências Agrárias, e resulta da cooperação entre a Autoridade Nacional de Educação Profissional (ANEP), em Moçambique, e a Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica do Ministério da Educação (SETEC/MEC), pelo Brasil. A implementação das ações é feita pelo Conselho Nacional das Instituições da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica (CONIF), com coordenação da Agência Brasileira de Cooperação, vinculada ao Ministério das Relações Exteriores (ABC/MRE). No IFMA, as ações se desenvolveram como projeto de extensão, no formato do “Curso de Formação Inicial e Continuada (FIC) de Formadores Moçambicanos da Área de Agricultura”, coordenado por professores do Campus Maracanã.

Certificação dos formadores no IFMA e CONIF

De acordo com o reitor Roberto Brandão, a parceria do CONIF com o Governo de Moçambique proporciona uma interface entre o conhecimento adquirido ao longo da vida acadêmica dos participantes e as tecnologias agrárias disponíveis nas instituições onde ocorreram as formações. “Se avaliarmos que esse intercâmbio é de mão dupla, começamos a perceber que há um resultado muito interessante para o IFMA”, disse o dirigente, chamando a atenção para o fato de, neste programa de mobilidade internacional, o Instituto atuar como receptor de intercambistas, depois de registrar sucessivas gerações de alunos enviados a universidades e centros de pesquisa no exterior. Nesse aspecto, Roberto Brandão apontou para o ganho institucional a partir de novos convênios e parcerias com outros países, fortalecendo a política de internacionalização. O reitor informou ainda que o CONIF programa a vinda de uma próxima turma de formadores moçambicanos ao Brasil, e o IFMA, além de receber novos intercambistas, planeja futuramente enviar ao país africano pesquisadores de seus campi agrícolas, completando a parceria de cooperação. E destacou que o sucesso do programa no Maranhão foi resultado do engajamento de diferentes setores do Instituto, em diversas unidades.

Helen Karine Araújo Pereira, da Diretoria de Relações Internacionais (DIRI) e coordenadora do projeto de extensão, disse que a vinda de estrangeiros por meio de programas de mobilidade acadêmica fortalece as políticas de internacionalização, ainda mais quando envolve a participação de mais de um campus, como nesse caso, que conta com outras unidades (Codó, Caxias e Mangabeiras) de ensino e pesquisa no eixo agrícola. “Uma porta de entrada para futuros trabalhos e atividades de cooperação, com a possibilidade de intercâmbio de tecnologia, profissionais e alunos, trazendo conhecimento para ambas as partes”, disse a professora, enfatizando como resultado a produção e publicação de artigos científicos, programas de iniciação à pesquisa e projetos de mestrado e doutorado, além de parcerias tecnológicas. Helen Pereira observou ainda as questões culturais envolvidas em ações de internacionalização, as quais devem ser consideradas no planejamento e execução de projetos para não ocorrer fragilização do processo formativo.

Professor do Instituto Agrário de Inhamússua, na província de Inhambane (sudeste do país), Abdul Ibraimo relatou como se deu a participação no programa de formação no Brasil. Segundo ele, a oportunidade foi comunicada pelo Ministério da Ciência e Tecnologia, Ensino Superior e Técnico-Profissional (MCTESTP), através das direções provinciais. Para preencher os requisitos de inscrição, os interessados deviam ser formados no ramo agropecuário e encontrar-se dentro da faixa etária estabelecida pelo convênio.

“Em função das áreas de formação e do perfil exigido pelo Ministério, os diretores dos institutos selecionaram os professores que iriam representar a região do país”, recordou. Com a indicação, os professores selecionados passaram a tratar diretamente com a instância ministerial, a respeito da documentação necessária e preparativos para a viagem. A saída da delegação de 30 formadores ocorreu da capital Maputo, com conexão em Luanda (capital de Angola). Outro voo intercontinental os trouxe a São Paulo, de onde se distribuíram em sete grupos para diferentes regiões brasileiras.

Sobre o cronograma desenvolvido no decorrer da capacitação no IFMA, o engenheiro agrônomo Thiago Palhares Farias, que também coordenou o curso FIC, destacou que a intensidade do trabalho foi além do planejamento do projeto, muitas vezes preenchendo os três turnos entre aulas teóricas em sala e, principalmente, atividades práticas em laboratórios ou no campo. Houve inclusive ocasiões de o conteúdo ter sido complementado com capacitações não previstas no plano de estudos, como um curso de cercas elétricas, realizado em pleno fim de semana. “Percebemos que eles estavam um pouco cansados, mas ao mesmo tempo motivados, porque havia o cansaço físico, no entanto, uma motivação psicológica pela oportunidade”, avaliou o coordenador, que integra o Departamento de Produção e Apoio Didático (DP) no Campus Maracanã. Referindo-se ao potencial do Campus em oferecer expertise nas áreas temáticas propostas, Thiago Farias observou que os relatos diários do grupo de intercambistas demonstravam a satisfação pessoal de cada um pela experiência enriquecedora da formação, sobretudo pela perspectiva de, quando retomarem as atividades pedagógicas no país de origem, conseguirem implementar os conhecimentos, metodologias e tecnologias apreendidas.

Atividades de Olericultura

“É de louvar todas as áreas que vimos [durante o curso no Brasil], porque são de extrema importância”, avaliou Justino Estevão, professor do Instituto Agrário de Gurúè, na província da Zambézia (região central). Ele explicou que, onde leciona, as aulas se concentram na formação teórica, e a experiência intensa com atividades predominantemente práticas nos institutos federais brasileiros motivaria a mudança no ensino moçambicano, do sistema clássico para o modular, seguindo um modelo educacional que privilegie a maior aplicação às atividades de campo do conhecimento teórico adquirido em aula. Para Justino Estevão, essa mudança vem sendo planejada para começar a ser instituída a partir de 2019, contando-se com o apoio dos governos locais para o fornecimento de materiais. O professor observou ainda as diferenças de terminologia empregada nos módulos de ensino de cada país, como o termo Agroecologia, que em seu país se designa por Agricultura Sustentável.

As diferenças entre os países também chamaram a atenção do chefe da Seção de Avicultura e Pequenos Animais (SECAPA/DP) do Campus Maracanã, o técnico agropecuário Antônio Anísio Pinheiro, que participou da equipe do projeto desde a concepção do curso FIC. À frente da disciplina de Avicultura nas atividades práticas pedagógicas, ele destacou a rica troca de experiências entre tecnologias e as realidades vivenciadas por brasileiros e moçambicanos. Como exemplo, mencionou o sistema de criação de galinhas caipiras, no Brasil, em que ocorre a divisão dos animais segundo a faixa etária, enquanto no outro país a galinha cafreal é criada solta em terreiro. A esse respeito, o técnico informou que um dos intercambistas chegou a vislumbrar a adoção em Moçambique do sistema de criação brasileiro com as aves, a fim de verificar como se dará o desenvolvimento do tipo cafreal. “A importância que vejo nesse processo [de cooperação internacional] é de nossas práticas educacionais ganharem fronteiras e serem levadas a Moçambique e à própria Rede [Federal]”, avaliou Anísio Pinheiro.

Atividades de Avicultura

Sobre a perspectiva de aplicar a formação no Brasil ao processo de ensino no país de origem, Naife Elias, do Instituto Agrário de Lichinga (província de Niassa, ao nordeste), considerou que a intenção do convênio de cooperação internacional é proporcionar aos alunos moçambicanos um “saber fazer” das técnicas e conhecimentos apreendidos. Ele ressaltou proposta do poder público de seu país, a fim de elevar o nível de desenvolvimento, para que as componentes práticas sejam intensificadas, tendo como suporte novas tecnologias. Nesse contexto, o professor avaliou ter ocorrido uma percepção tardia de que a agricultura constitui a base do desenvolvimento em Moçambique, o que requer investimentos e capacitação nesse setor produtivo, antes constituído basicamente por pequenos produtores rurais. “Como fazer isso? Capacitando o quadro de pessoal para que possam usar o conhecimento na capacitação de alunos e das comunidades circunvizinhas”, refletiu Naife Elias, para quem o efeito multiplicador alcançará resultados favoráveis no futuro, fazendo com que o país deixe de ser dependente e atinja a autossuficiência, com o fortalecimento do comércio e das instituições.

Outro fator de destaque do processo de formação no IFMA foi que as atividades não se limitaram à estrutura do Campus Maracanã, já que o grupo também participou de visitas técnicas a instituições e produtores agrícolas, tanto em São Luís quanto em outros municípios, podendo verificar a aplicação de tecnologias pesquisadas em sistemas de portes variados e diferente disponibilidade de recursos. Em Bacabeira, o produtor rural Paulo Fernando da Silva apresentou técnicas voltadas para a criação de codornas, que ele vem há quatro anos desenvolvendo em estrutura familiar. “O pequeno produtor só precisa de um pouco mais de incentivo do poder público, pois todos que estão em uma atividade [produtiva] têm grande conhecimento [técnico], apenas não têm recursos [para investir]”, argumentou Paulo da Silva, que manifestou a satisfação pessoal de pessoas de outro país virem conhecer seu trabalho e conhecimento no manejo das aves.

Professora de Agroecologia e coordenadora das atividades do projeto relacionadas ao campus do IFMA em Caxias, região maranhense dos Cocais, Ana Roberta Lima de Miranda recorda que ela própria já participou de mobilidade acadêmica internacional, quando cursava o doutorado em Agronomia e Agricultura Tropical na Universidade Federal do Piauí (UFPI), que incluiu um período com bolsa “sanduíche” na Wageningen University Research (Holanda). Para ela, uma boa recepção e valorização de pesquisadores visitantes, que chegam com inúmeras expectativas e experiências válidas, repercute em um maior rendimento e agregação de valor ao conjunto do trabalho. “Não somos os detentores do conhecimento, e eles [os intercambistas] vêm aprender, mas também ensinar”, ponderou Ana Roberta de Miranda, ressaltando ainda o efeito motivacional nos estudantes que acompanham a troca de expertises.

De fato, Zito Aidene, que também leciona no Instituto Agrário de Lichinga, atribuiu grande parte do sucesso do programa à boa acolhida pelos brasileiros engajados nas atividades, desde a simples recepção dos grupos de formadores moçambicanos às fases finais do cronograma. No âmbito do IFMA, ele destacou a disponibilidade dos professores e técnicos diretamente envolvidos com as atividades, ao transmitirem sem qualquer omissão conhecimentos práticos aos intercambistas, ampliando as perspectivas de estes alavancarem novas metodologias de ensino e práticas educacionais nas instituições onde lecionam.

O quadro discente brasileiro também se beneficiou com o projeto de extensão. Solange de Jesus Martins Barbosa é aluna do curso técnico em Agropecuária oferecido pelo Campus Maracanã, e também cursa a graduação em Zootecnia na Universidade Estadual do Maranhão (UEMA). Em fase de estágio no setor de processamento de aves, ela se aproximou por coincidência do grupo de professores moçambicanos, e participou como ouvinte de algumas atividades da capacitação. A estudante destacou que, além de ampliar o aprendizado de conteúdos em sua área de estudos, a convivência com os estrangeiros possibilitou conhecer um pouco sobre a sociedade, história e cultura do seu país de origem. Sem contar que a própria Solange Barbosa pôde apresentar aos novos colegas informações sobre o Maranhão e o Brasil.

Para a diretora-geral do Campus Maracanã, Lucimeire Amorim Castro, a participação no programa de mobilidade, além de cumprir o compromisso firmado entre as instituições envolvidas, é significativa para que o Instituto demonstre seu potencial para receber pessoas de outros lugares do mundo em busca de capacitação através de programas de intercâmbio. Em vista da situação de dificuldades sociais e econômicas enfrentadas em diversas regiões do planeta, a gestora observou que a cooperação internacional é uma forma de contribuir com a melhoria das condições de vida da humanidade. Nesse sentido, ela refletiu que a troca de experiências com os professores moçambicanos também envolveu relações entre pessoas, o que favorece a abertura de diálogos no processo de aplicação do conhecimento técnico e tecnologias aprendidos durante o curso.

No entanto, Lucimeire Amorim considerou curto o tempo de formação do grupo em cada instituto federal (um mês), pois uma duração maior possibilitaria que outros aspectos além do saber técnico pudessem ser melhor intercambiados entre brasileiros e moçambicanos, tais como informações sobre o contexto sócio-político, as artes e a cultura de cada país. “Precisamos de um tempo maior para as pessoas poderem conviver melhor com a gente [brasileiros], para haver essa troca de ideias, relações, conhecimentos e experiências”, disse a diretora, enfatizando a diversidade de fatores que compõem as sociedades humanas. Segundo ela, a permanência mais prolongada dos formadores ensejaria, por exemplo, uma participação mais efetiva do Núcleo de Estudos e Pesquisas Afro-brasileiros e Indígenas (NEABI) no cronograma de atividades do projeto, promovendo debates e eventos que enriquecessem o próprio intercâmbio.

Cooperação Sul-Sul

Diferente da tradicional cooperação Norte-Sul, em que países desenvolvidos do Hemisfério Norte colaboram com países em desenvolvimento do Hemisfério Sul, essa modalidade de cooperação técnica internacional envolve países em desenvolvimento com desafios e experiências semelhantes, constituindo uma das prioridades da política externa brasileira. Segundo o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), o Brasil tem investido na última década esforços e recursos em programas voltados para países da América Latina e Caribe, África e Ásia, através da ABC/MRE, sendo o primeiro país a ter Cooperação Sul-Sul como parte integrante de acordo com a organização internacional.

A iniciativa de capacitar formadores de Moçambique de instituições agrárias teve início em 2016, a partir da ampliação do debate entre o CONIF e instituições daquele país, a fim de fortalecer a cooperação Sul-Sul. A perspectiva era de compartilhar boas práticas e estratégias conjuntas para superação de desafios comuns, respondendo de forma eficaz às exigências dos currículos e fazendo uso integral dos equipamentos existentes nas suas instituições. No ano seguinte, uma missão de gestores da Rede Federal esteve em Moçambique para identificar áreas prioritárias para a cooperação e conhecer melhor os sistemas de educação profissional implementados nos dois países. A missão foi estruturada em forma de seminário, visitas a instituições moçambicanas e reuniões com equipes dos ministérios envolvidos – além do MCTESTP, o Ministério da Cultura e Turismo (MCT). Definiram-se as seguintes áreas temáticas: extensão agrária; irrigação; mecanização agrícola; sanidade animal; sanidade vegetal; sistemas de produção; solos cultivados; tecnologias de produtos agropecuários processados. No mesmo ano, diversos institutos federais brasileiros receberam a primeira turma de intercambistas, composta por 30 formadores. O IFMA passou a integrar o rol de instituições capacitadoras em 2018.

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