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Debate levanta tema da pluralidade no feminismo

Com a participação de servidoras de diversos setores do Instituto, roda de conversa marcou passagem do Dia Internacional da Mulher
  • Augusto do Nascimento
  • publicado 11/03/2020 18h17
  • última modificação 11/03/2020 18h20

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Enquanto instituição voltada para a promoção da educação, o IFMA deve construir e consolidar espaços de reflexão em torno das questões de gênero, a fim de levantar o debate sobre diversidade, além de temas como violência contra a mulher e desigualdade social. Esse foi um dos principais entendimentos dos participantes da roda de conversa “Feminismos plurais: debates transversais e posturas anti-machistas”, realizado na segunda-feira (9), no auditório da Reitoria. Organizado por duas pró-reitorias do Instituto – de Ensino (PROEN) e de Planejamento e Desenvolvimento Institucional (PROPLADI) – em parceria com a Procuradoria Jurídica (PROJUR), o encontro de servidoras marcou a passagem do Dia Internacional da Mulher (8 de março).

A roda de conversa contou com a presença das docentes Maria do Socorro Botelho e Luciene Amorim Antônio, das assistentes sociais Dayse Rocha Araújo e Karoline Parrião Rodrigues, e da subprocuradora Ângela Saldanha Rêgo (PROJUR), tendo mediação do professor João Batista Botelho, chefe do Departamento de Direitos Humanos e Inclusão Social (DDHIS/PROEN).

Na abertura, a chefe da Coordenadoria de Qualidade de Vida do Servidor (NQV/PROPLADI), Ellen Cristiny Aroucha, apresentou dados referentes à presença das mulheres no IFMA, que contabiliza 1.328 servidoras (41,99% do total) em seu quadro de ativos permanentes (docentes, técnicas administrativas, e estagiárias) e 148 aposentadas (46,69%). Considerando-se o papel na administração do Instituto, as mulheres têm participação em 37% dos cargos de gestão. Quanto às pesquisadoras, estas respondem por 68% das patentes depositadas pela instituição, bem como pela coordenação de 44% dos projetos aprovados no biênio 2019/2020 na Pró-reitoria de Pesquisa, Pós-graduação e Inovação (PRPGI). E as servidoras coordenaram 55% dos projetos de extensão aprovados no IFMA no ano passado.

Os dados receberam ênfase do pró-reitor Carlos César Teixeira (PROPLADI), que representou a Reitoria no evento. Referindo-se ao histórico do IFMA, ele ressaltou ainda o fato de apenas em 1972 as mulheres terem ingressado na instituição (à época denominada Escola Técnica Federal), muitas décadas após a criação das Escolas de Aprendizes Artífices nas capitais dos estados brasileiros. Em 1975, a Organização das Nações Unidas (ONU) oficializaria a data de 8 de março como Dia Internacional da Mulher. “Uma instituição como a nossa forma pessoas e ideias”, disse Carlos César Teixeira, destacando que o debate para tratar do feminismo e da violência contra a mulher vem sendo ampliado na sociedade e no Instituto.

Segundo Socorro Botelho, a questão do pluralismo já vinha sendo abordada pelos movimentos feministas no passado, e com o tempo se aumentou a percepção de que as mulheres deveriam aprofundar a discussão em torno de seu papel na sociedade. “É necessário falar do pluralismo no IFMA, e levar a discussão para os campi”, destacou ela, que é secretária-executiva do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas (NEABI) tanto na instância Central quanto no Campus Maracanã (onde é professora de Português e Literatura), além de coordenar o grupo de pesquisa homônimo credenciado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Em sua fala, Socorro Botelho apresentou uma pesquisa que desenvolveu com servidoras aposentadas, e chamou a atenção para a discriminação sofrida principalmente pelas mulheres negras, que se agrava quando atingem a velhice. Ela ponderou que o pluralismo intergeracional resulta do diálogo e acolhida mútuos, entre a juventude e os velhos, que trazem guardados consigo experiências e saberes.

Diretora de Desenvolvimento Institucional do Campus Centro Histórico, Luciene Amorim refletiu que as questões de gênero são construções sociais, e que a pulverização de lutas voltadas para diferentes temas dificultam a compreensão mais ampla do contexto geral da sociedade em que estão inseridos esses movimentos. Professora de Filosofia, ela argumentou que o Brasil é marcado por uma forte herança escravagista e sexista, que levou a desigualdades sociais, sendo necessário um recorte de gênero e etnia para a discussão da condição atual da mulher. “Enquanto instituição de formação, precisamos abrir cada vez mais espaços para discutir a questão das mulheres negras”, disse Luciene Amorim, apontando soluções na capacitação e ampliação dos cargos de gestão ocupados por servidoras. Para a diretora, o IFMA tem a missão, responsabilidade e obrigação de contribuir com mudanças nesse cenário social.

Ao abordar o tema do feminismo, Ângela Saldanha considerou tratar-se de uma luta política ancestral, decorrente da divisão de papeis sociais desde as sociedades mais antigas, com a criação de estereótipos para homens (considerados fortes e dominadores) e mulheres (vistas como delicadas e submissas). De acordo com a subprocuradora, essa preponderância histórica de relações e valores sociais do patriarcado, embora questionados a partir dos ideais iluministas na modernidade, levou à construção social de fatores como o machismo, o pátrio poder e a misoginia, à cultura do assédio e estupro, bem como a práticas como a LGBTfobia e à transfobia. Referindo-se aos dias atuais, Ângela Saldanha ponderou que, embora tenham conquistado cada vez mais espaço no mercado de trabalho e na dinâmica da sociedade, as mulheres ainda assumem a maior parte das atribuições domésticas. “Gênero é uma construção social histórica que precisa ser revista, pois pagamos uma conta alta para sair de casa [ao arcar com a dupla jornada de trabalhar e dividir o tempo com os cuidados da família]”, concluiu.

O assédio sexual e moral foi a questão central levantada por Karoline Rodrigues, da Coordenadoria de Assuntos Estudantis (CAE) do Campus Pinheiro. Segundo a assistente social, a realidade brasileira não é favorável para combater essa forma de violência, que afeta em predominância as mulheres, pois são poucas as leis estaduais e municipais que tratam do tema, e ainda não há legislação federal específica que reforce a base geral prevista na Constituição de 1988. Mestranda em Políticas Públicas, Karoline Rodrigues discutiu formas de identificar o assédio no ambiente profissional, a partir de proposições do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP). Ao reforçar que a ocorrência da prática violenta independe do grau de hierarquia entre os envolvidos, a servidora considerou as consequências negativas observadas em diferentes dimensões: na vida pessoal, a exemplo do desenvolvimento de transtornos mentais e de comportamento, assim como no convívio familiar; na própria instituição, onde decorrem fatores como queda de produtividade e conflitos nas relações de trabalho; e na sociedade como um todo, pelo aumento do desemprego e maior dependência de políticas sociais. Sobre o contexto do IFMA, a assistente social informou que em 2019 foram registradas ocorrências de assédio na Comissão de Ética (sete do tipo moral) e na Ouvidoria (três casos de assédio sexual e um moral), todos contra mulheres.

Encerrando o ciclo de apresentações, Dayse Rocha, da Diretoria de Assuntos Estudantis (DAE/PROEN), abordou a questão do feminicídio, que vem aumentando em todo o mundo. A diretora enfatizou que o assassinato de mulheres, apesar de constituir uma prática antiga, só passou a contar com mecanismos de combate recentemente, e no Brasil atinge na maior parte mulheres negras (61% dos casos registrados), da Região Nordeste (87%) e com idade até 35 anos (31%). “A violência tem, sim, cara e valor. Quem está morrendo são mulheres de renda mais baixa, negras e jovens”, disse ela, destacando ainda a alta incidência de vítimas com baixa escolaridade (menos de oito anos de estudo formal). Segundo Dayse Rocha, a falta de acesso de muitas mulheres às redes de proteção e assistência (como asilos para abrigar as vítimas, conselhos tutelares e centros de referência e assistência social) favorecem a ocorrência do feminicídio, e de atos velados de violência, como a do tipo psicológico. “O machismo é estrutural e está presente em todos os setores da sociedade”, afirmou a diretora, ressaltando o compromisso ético dos servidores do IFMA com esse tema, e fazendo referência à campanha de combate ao assédio sexual lançada no ano passado.

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