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Obra “Incorporação e Compartilhamento do Desejo” de Juciana Sampaio

Livro da socióloga Juciana de Oliveira Sampaio é o décimo apresentado pela série especial de reportagens sobre as publicações da Editora IFMA
  • Assessoria de Comunicação
  • publicado 25/08/2021 11h36
  • última modificação 25/08/2021 11h37

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A Editora do Instituto Federal do Maranhão (EdIFMA) completa cinco anos de existência e, para comemorar, está sendo publicada uma série de postagens nas redes sociais e no portal da instituição, sobre as obras já lançadas pela Editora. Ao longo desse período, foram 37 publicações de pesquisadores e estudantes. Nesta décima postagem, será apresentada a obra “Incorporação e Compartilhamento do Desejo – Notas sobre corporalidades e o caráter associativo entre travestis em São Luís” (2019), da socióloga Juciana de Oliveira Sampaio, professora do Campus IFMA Monte Castelo.

O trabalho de Juciana Sampaio se baseia nos preceitos dos estudos Queer, perspectiva surgida no fim do século 20 como contestação das amarras identitárias referentes ao gênero e às práticas sexuais. Nesse sentido, O sujeito queer assume em todos os sentidos uma fuga dos padrões sociais ditos “normais”, e se caracteriza como sujeito “desviante”, em trânsito, um ser “entre-lugares”, que não apenas aceita os estereótipos, mas os assume, dando-os positividade. Segundo a autora, ao desafiar a ordem hegemônica, a teoria queer oferece ferramentas teóricas para pensar as travestis e sua ambiguidade enquanto sujeitos de sexualidade vista como desviante, por ocuparem uma posição singular em relação à “sagrada” fronteira do gênero, que assume os lugares masculino/feminino como categorias fixas, ou experiências de homem e de mulher (re)conhecidas como legítimas. Além de atravessarem essa fronteira, as travestis tanto podem permanecer nela quanto, mais ainda, podem deslocá-la.

Com 353 páginas, a obra constitui um desdobramento de pesquisas que Juciana Sampaio iniciou ainda no curso de graduação em Ciências Sociais (entre 2003 e 2006), na Universidade Federal do Maranhão (UFMA), e que resultaram no seu trabalho de conclusão do curso: “(Des)Construindo gênero: Sexualidade e subversões identitárias e corporais de travestis em São Luís, Maranhão”, com orientação de Sandra Maria Nascimento Sousa. O livro publicado pela EdIFMA, no entanto, corresponde ao trabalho de dissertação de mestrado da pesquisadora (também na UFMA e com a mesma orientação, foi defendido em 2009), que optou por não alterar o texto e manter a estrutura original. “Como toda obra, ele é fruto do contexto histórico”, ressalta.

Conheça o livro de Juciana Sampaio:

“Incorporação e Compartilhamento do Desejo”

Em sua investigação, a autora tenta dar conta da experiência das travestis, buscando ouvir suas falas. Dessa forma, utiliza como recurso metodológico de escuta a técnica de história de vida como história oral, pela qual procura respostas a diversas indagações, quais sejam, sobre a forma como as travestis elaboram os referenciais para a construção de suas subjetividades, ou como se constituem diante da norma heterossexual vigente. Juciana Sampaio também questiona até que ponto as representações das travestis apontam para a normalização ou subversão dos papéis normatizados masculinos e femininos, e qual é o “feminino” da travesti. Assim, sem pretender esgotar o tema, o trabalho da socióloga trata dos movimentos antinormalizadores postos em prática por sujeitos encerrados nessa denominação.

“Não estarei em busca de coerência, de uma unificação, mas justamente da multiplicidade, das linhas de fuga, dos estratos e das segmentaridades”, afirma Juciana Sampaio, referindo-se a autores que já se debruçaram sobre a questão. Ela observa que a experiência das travestis aponta para um esfacelamento de qualquer subjetividade de gênero/sexual compreensível na lógica binária e heterossexual. Portanto, “Incorporação e Compartilhamento do Desejo”, mais do que buscar os lugares normativos onde se encontram as travestis, percorre os movimentos fugidios, os desencontros que essas experiências suscitam na linguagem, visto desarticular qualquer coerência da gramática sexual.

Restrita à cidade de São Luís, a pesquisa de Juciana Sampaio deparou com inúmeras peculiaridades que motivaram o cruzamento na análise do gênero com outros eixos (raça, classe social, regionalidade, dentre outros). Ao buscar o distanciamento da vinculação socialmente existente entre travesti e prostituição, o trabalho propõe pensar outras possibilidades de existência desses sujeitos. Em seu percurso investigativo, a autora inquire como as travestis residentes na capital maranhense se representam e constroem seus corpos, gestos e sentimentos, assim como vivem seu cotidiano driblando as normas institucionais.

“Ser travesti é um processo que nunca se encerra, o que não as diferencia em nada dos gêneros normatizados, ou seja, o ‘tornar-se’ ao mesmo tempo em que é posto em prática, é adiado”, explica Juciana Sampaio. Em sua reflexão, a autora argumenta que o corpo não se mostra como uma evidência, nem produz condutas, como demonstra o projeto das travestis, que estão em constante processo de produção de um corpo próximo do feminino. Embora esse aspecto pudesse levar à conclusão de aproximar-se da representação do par dicotômico homem/mulher como referencial legítimo, algumas de suas afirmações indicam um embate com a matriz de heterossexualidade, conformando-se em um feminino “genuinamente travesti”.

Outro ponto que a socióloga constata é a tendência de aglutinação destas pessoas, decorrente da exclusão social a que estão sujeitas, cometidas por diversas instituições (família, escola, estado, mercado de trabalho são alguns exemplos) como rejeição ao modo de existir das travestis. Essas redes de relações são fundamentais e se expressam pelas proximidades residenciais e pelos fortes laços de amizade (não excludentes, contudo, de disputas e conflitos), sendo indispensáveis para o processo de aprendizagem do “ser travesti”, que inclui intensa circulação de informações para constituírem suas subjetividades.

A obra

Nos quatro capítulos em que se divide “Incorporação e Compartilhamento do Desejo”, Juciana Sampaio expõe os referenciais teóricos que utiliza e apresenta os sujeitos envolvidos, traçando um caminho que evidencia como as noções de “sexo” e “gênero” adquiriram uma suposta unificação, a ponto de serem consideradas instâncias naturais. A autora apresenta perspectivas que abrangem paradigmas desde a unicidade sexual, passam pela diferença sexual, até chegarem ao ponto em que tais diferenças se esvaem em um estágio de total indiferença sexual. Em seguida, cruzam-se duas perspectivas teóricas, configuradas nos estudos sobre a noção de pessoa e sobre corporalidades, já que a construção contínua do ser travesti envolve uma indispensável modificação corporal, através de processos e técnicas para a “fabricação dessa nova pessoa”, dotada de um feminino peculiar.

O próximo passo do trabalho de Juciana Sampaio consiste em discorrer sobre a figura das “bombadeiras”, como são conhecidas as pessoas que, ao largo do sistema de saúde, executam a aplicação de hormônios e silicone industrial na construção do corpo feminino pelas travestis. A pesquisadora discorre sobre o papel dessas figuras tanto no processo de transformação corporal quanto nas tramas sociais que atravessam os grupos, analisando como os discursos “nati­vos” referentes às técnicas utilizadas na construção desses cor­pos e subjetividades ganham legitimidade em função de outros, especialmente dos discursos médicos e legais. Finalmente, a autora demonstra a tessitura das dinâmicas grupais pelas travestis, e as relações existentes entre essas tramas e suas concomitantes construções “pessoais” e corporais. Juciana Sampaio busca perceber quais processos estão presentes na forma­ção e manutenção dessas redes de relações, e o que dá sustentabilidade aos grupos.

 

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