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Bola feita com látex da mangabeira é tema de estudo de pesquisadores do IFMA

Em meio à concorrência com a tecnologia, a produção da bola de mangaba sobrevive em Patizal, comunidade localizada em Morros-MA, graças à procura de crianças pelo brinquedo e ao trabalho de artesãos do povoado.
  • Por Assessoria de Comunicação / Fotos: Camila Andrade (divulgação)
  • publicado 23/09/2022 09h48
  • última modificação 23/09/2022 09h48

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Bola de mangaba

Na era da tecnologia, no qual aplicativos e games de celular fazem sucesso entre meninos e meninas, os jogos de bola ainda são uma das brincadeiras preferidas entre as crianças. Mas na comunidade de Patizal, localizada em Morros-MA, as partidas de futebol disputadas pela garotada possuem uma singularidade. Para praticar o esporte, a criançada não utiliza uma esfera de borracha comprada em uma loja qualquer e, sim, uma bola dourada de intenso brilho, confeccionada por artesãos do povoado a partir do látex da mangabeira. A produção do brinquedo, que sobrevive graças à procura de seus pequenos clientes e à sabedoria tradicional de seus fabricantes, foi tema de um estudo apresentado, em um congresso sobre design, por um grupo formado por pesquisadores do IFMA e de outras instituições.

Os resultados da pesquisa foram divulgados em forma de artigo na III Jornada de do Programa de Pós-Graduação em Design da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), realizada em São Luís-MA nos dias 19, 20 e 21 de setembro.  Intitulado “O fluxo dos materiais na feitura da bola de mangaba em Patizal: reflexões sobre sustentabilidade”, o texto foi assinado pela professora do IFMA Camila Andrade, mestre em Design; pela professora da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) Raquel Noronha, doutora em Ciências Sociais e líder do Núcleo de Pesquisas em Inovação, Design e Antropologia; e pelo graduando em Agronomia do IFMA, Josué Silva, que é morador da comunidade de Patizal.

Acesse o artigo

Durante o estudo, os pesquisadores identificaram, na fabricação da bola de mangaba, características que permitem classificar a produção como uma atividade sustentável – “há a sazonalidade, a temporalidade e a relação com o corpo e com o brincar na comunidade”. De acordo com os artesãos, os principais clientes são mesmo a garotada, que compra a bola principalmente para o jogo de futebol. Para os pesquisadores, é justamente a interação com os moradores da própria localidade que permite a sobrevivência da produção.

Comercialização

Patizal fica localizada a 30 km do município de Morros, que por sua vez situa-se a 85 km de São Luís, capital do Maranhão. A bola de mangaba é produzida pelos artesãos moradores do povoado, o que garante que os fabricantes – geralmente vizinhos e parentes das crianças – vendam o produto diretamente aos consumidores. Na comunidade, vivem cerca de 10 famílias – 18 homens, 15 mulheres e 18 meninos e meninas.

Os valores da mercadoria dependem do tamanho. Uma bola de dimensão adequada a uma partida de futebol custa R$ 15,00. Esse é preço pelo qual se pode também adquirir o produto no Festival da Mangaba, evento realizado pela prefeitura de Morros, do qual costumam participar os artesãos de Patizal.

Produção

A produção da bola de mangaba resiste ao tempo e à concorrência com a era tecnológica não apenas por conta do interesse das crianças, mas também devido à tradição dos artesãos que confeccionam o brinquedo. Mesmo com risco de desaparecimento, o legado ainda é passado a membros mais jovens da comunidade.

Mangabeira e seu fruto.

A mangabeira (Hancornia speciosa) é uma espécie de árvore que, como a seringueira, produz leite, ou látex. Dela, além do látex, com o qual se produz a bola de mangaba e também a “peteca” (um tipo de bola que quica bastante), também são aproveitados a casca e os frutos. Da fruta os moradores fazem suco, mousse e sorvete. Da casca, chá anti-inflamatório. O alto aproveitamento, segundo os pesquisadores, também é uma característica de sustentabilidade das atividades desenvolvidas a partir da mangabeira. A produção da comunidade é fortalecida ainda pela Associação de Trabalhadores e Trabalhadoras de Patizal, que pratica agricultura de base ecológica. Além do artesanato, as famílias locais produzem farinha, fécula de araruta e outros produtos agrícolas (junça, inhame, macaxeira, maxixe, melancia, abóbora, feijão, arroz, milho, quiabo, tomate) para consumo e venda em feira.

Na confecção da bola de mangaba, os pesquisadores acompanharam o trabalho do artesão José de Ribamar Pereira da Silva, 51 anos. Primeiro, a árvore é raspada para coletar a matéria-prima. Pelo corte feito no tronco escorre a seiva (látex) que, quando coagulada, dá origem à borracha natural. Conforme descrito no estudo, o artesão recolhe o líquido, esbranquiçado e de aspecto viscoso, e o armazena em um recipiente no qual é adicionado sal de cozinha para “talhar” a seiva, que então vira uma massa de borracha. Esse material é achatado com uma garrafa de vidro – que faz as vezes de um rolo de abrir massa. Após amassado, o pedaço de borracha adquire um formato circular e tem o contorno apertado com os dentes pelo artesão. Esse círculo é soprado e infla, ganhando aspecto de balão ou bola. Para cobertura, maior resistência e formato mais regular do material, são aplicadas camadas de látex sobre a bola. Essas camadas são produzidas a partir da secagem do látex em tábuas, formando fitas douradas.

Os pesquisadores descrevem que José de Ribamar Pereira da Silva aprendeu a técnica com José Tomás, então morador de Mocambo, mas que atualmente reside em Periz de Baixo. Já José Tomás teria aprendido a fazer as bolas com seu irmão, Benedito Alves dos Santos, e este com o pai, Furtuoso Gomes dos Santos, já falecido. Dos cinco filhos de Benedito Alves dos Santos, todos sabem confeccionar a bola. Os dois filhos de José Tomás também sabem fazê-la. Enquanto José de Ribamar Pereira da Silva explica que, embora tenha ensinado a técnica para seus quatro filhos, é ele quem de fato produz com maior frequência.

Como descrito no artigo, a produção da bola de mangaba é um saber que perdura por meio das pessoas, mas também dos lugares. As mangabeiras nascem na floresta nativa de Patizal e se estendem até a comunidade de Mocambo. Por causa da presença das árvores nesse território, a tradição se mantém nos dois povoados, segundo relatam os pesquisadores. Já em Periz de Baixo, por mais que conservem o saber, seus moradores não o podem por em prática, “pois no local não há mangabeiras”.

 

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